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FÉ INSTAGRAMÁVEL – parte 1

Mundo midiático, igreja performática.

Uma música emocionante toma conta do lugar enquanto as luzes criam um ambiente acolhedor. Você está tentando meditar nas palavras que está cantando, quando, de repente, pelo cantinho do olho, percebe que está sendo observado. Lá está ela, a lente implacável na sua direção. Isso significa que seu rosto, seu momento de adoração, logo aparecerão nas redes sociais daquela comunidade digitalmente engajada. Você continua como se nada estivesse acontecendo? Seu coração acelera um pouco? Você tenta parecer espontâneo? Acaso essa tentativa acaba ficando tão forçada quanto a própria ideia de “naturalidade” sob vigilância e você se vê tal qual o meme do “aja naturalmente”? Será que uma pontinha de vergonha surge ao se lembrar: “Todos verão minha imagem”? Ou será que justamente tal lembrança lhe leva a fechar os olhos, levantar as mãos, cantar mais alto e com um semblante mais fervoroso? Pretendendo, talvez inconscientemente, que o registro revele o melhor de você — um flash de intensa adoração. Talvez, sua preocupação passe a ser sobre sair bem na foto, isto é, sobre como lhe perceberão, estética ou espiritualmente: “Veja como essa pessoa louva a Deus!”. Talvez, a câmera nem esteja apontada para você, mas paira a expectativa, boa ou ruim, de que, em algum momento, ela estará.

Nessa nova realidade, o grande irmão deixou de ser aquele moço alto da igreja e passou a ser o infindável Big Brother que tem se repetido cada vez mais no cotidiano eclesiástico de nossos dias. Esse BBB gospel pode ser acompanhado nas redes sociais da igreja ou do crente mais próximo de você, porém, não somente nelas, uma vez que esse fenômeno reflete uma realidade maior, mais antiga e ainda mais onipresente do que Orwell poderia ficcionar. Afinal, a tensão entre ser visto e ser autêntico, entre adorar a Deus e agradar a uma audiência, apresenta-se sob mais formas do que imaginamos. Enquanto o clique captura um instante de devoção pública, a pergunta silenciosa e crucial permanece: Para quem é essa adoração? E qual o papel da tecnologia nisso tudo?

É puro negacionismo pensar que esse fenômeno não existe ou não tem tanta relevância. Como quem não quer nada, converse um pouco com pessoas em diferentes igrejas que possuem o hábito de fazer múltiplos registros digitais das reuniões. Você verá muita gente incomodada com aquilo que consideram uma atitude invasiva dos paparazzi de culto. Verá ainda pessoas afirmando conhecer (só conhecer mesmo, pois nessas horas ninguém se assume) quem só espere o momento da câmera virar para elas a fim de dar início à teatralização. Numa rápida pesquisa na internet, encontramos os memes a seguir [1]. Clique aqui para ver algumas das centenas de comentários que foram postados sobre essas imagens e denunciam esse hábito já tão disseminado em tantas igrejas.


  1. Cultura do espetáculo 

Viver de aparências pode ser uma tentação constante, sobretudo numa era dominada por uma nem sempre sutil competição de exibicionismo nas redes sociais. Esse comportamento acarreta uma série de graves problemas que comprometem a genuinidade do relacionamento com Deus e a integridade da comunidade de fé. Pensando nisso, esta série oferecerá provocações bíblicas e filosóficas a fim de tecer ponderações acerca do uso da tecnologia pelos cristãos, bem como um alerta contra a cultura do espetáculo nas igrejas. Cultura esta que se manifesta (1) na ênfase por performance para angariar o louvor humano e (2) na ênfase por estética sem conteúdo, ambas em detrimento do culto a Deus e do serviço ao próximo. Isso torna urgente refletirmos: Como a igreja, e cada um de nós, lidará com a crescente pressão por uma superexposição nas mídias e por uma estética que, destituída de essência, desvaloriza pessoas, conforme veremos?

Definimos aqui “cultura do espetáculo” como a tendência de transformar a adoração a Deus em uma exibição pública que visa impressionar os outros. Nela, destaca-se a aparência na produção de eventos, na exibição de práticas de fé e, por vezes, na midiatização destes elementos por meio das redes sociais. Essa cultura não está, necessariamente, no ambiente de igrejas modernas, cujos cultos apresentam bateria, show de luzes e parede preta. Independentemente da utilização ou não de recursos mais contemporâneos como esses, a cultura do espetáculo se demonstra na apreciação mais do impacto visual e da atmosfera criada por ele do que do conteúdo ali transmitido. Tudo isso, sinalizando uma vivência cristã rasa, geralmente centrada em agradar determinado nicho de mercado.

“Na cultura do espetáculo, em suma, privilegia-se a imagem em relação à coisa, a cópia ao original, a representação à realidade, a aparência ao ser. O espetáculo é a forma que confere sentido a uma sociedade fragmentada, é uma forma sofisticada que levou ao extremo o fetichismo da mercadoria […]. E, nela, a imagem visual ocupa lugar de honra.”[2]

Tamanho é o lugar de honra da imagem nessa cultura que até mortes têm sido causadas em nome dela.

Cerca de 379 pessoas morreram enquanto tentavam tirar a selfie perfeita, em uma pesquisa realizada entre janeiro de 2008 e julho de 2021. Os números, no entanto, se tornaram mais alarmantes em 2021. Durante os primeiros sete meses desse ano, foram registrados 31 acidentes fatais por esse motivo no mundo. Em média, um por semana.[3]

Apesar dessa exposição on-line ser algo novo, o afã tanto da estética superficial quanto da performance em prol do louvor humano são bem velhos. Como veremos, as antigas páginas das Escrituras já estão repletas de advertências contra tais práticas. Ainda assim, para muitos cristãos, nada parece melhor para evidenciar uma “fé genuína” do que uma imagem demonstrando devoção nas redes sociais, um filtro bem aplicado e as hashtags certas. No fim das contas, por que se preocupar com advertências bíblicas ultrapassadas se, em vez disso, você pode conseguir alguns likes?

2. O mundo (digital) está entrando na igreja

Certamente, este é um tema com potencial para despertar melindres e levar os menos atentos a suscitar objeções ao que não estamos afirmando. Assim, faz-se necessário acalmar a inquietação de alguns leitores. Que fique claro: esta não é uma crítica a igrejas que possuem um sólido e organizado ministério de mídias e que prezam por uma boa estética em seus eventos e publicações! Afinal, a internet pode ser uma poderosa ferramenta de evangelização e de instrução, sendo assim impossível desconsiderar a importância de “que as igrejas abracem as oportunidades oferecidas pelas redes sociais”[4]. 

Logo, não haverá aqui qualquer apologia anti-tecnológica ou antiestética. Mesmo porque, este texto foi escrito e será lido por meio de tecnologias e esperamos que ele esteja bom também do ponto de vista estético. É perfeitamente legítimo e mesmo bastante útil que uma igreja possua redes sociais, compartilhe nelas seus eventos, suas fotos, seus vídeos bem produzidos e tenha muitas visualizações e engajamento com eles. Todavia, é imprescindível que haja sabedoria nesse tema, pois, diferentemente do que se pensa, a tecnologia modifica o ser humano — quer ele o queira, quer não. Parte da falta de sabedoria ao lidarmos com ela advém de ignorarmos esse fato. Por isso, nos debruçaremos sobre ele.

3. O mito da neutralidade tecnológica

Essa tecnologia mudou tudo. Tal como um HD externo, ela ampliou a capacidade humana de compartilhar ideias e registrar eventos, superando as limitações da nossa memória ao, por meio de um código, permitir o armazenamento eficiente e durável de informações fora do nosso cérebro. Estamos falando (ou escrevendo) sobre a escrita.

3.1. Está escrito

A maioria das pessoas costuma pensar em tecnologia apenas em termos de máquinas ou sistemas computacionais, ignorando que ela vai muito além disso. Tecnologia (do grego “techne“: “técnica” e “logia“: “estudo”) pode ser definida, grosso modo, como qualquer ferramenta desenvolvida para a resolução de algum problema. A escrita foi desenvolvida para resolver dois deles: como preservar informações ao longo do tempo e como manter a comunicação precisa a longas distâncias. Ela transformou a maneira como as sociedades organizam suas ideias e sua cultura, permitindo desde a criação de meros lembretes do que comprar no mercado, a documentos legais, textos literários e registros históricos.

Assim, a escrita não apenas facilitou a comunicação, como transformou a maneira como o conhecimento é transmitido e acumulado, sendo, portanto, uma das principais tecnologias criadas pela humanidade. Não só isso — a escrita transformou a própria humanidade.

Temendo os efeitos danosos de tal transformação, o filósofo grego Sócrates (470 a.C. – 399 a.C.) não deixou nenhum escrito. Tudo o que sabemos sobre seu pensamento vem dos escritos de seus (nesse ponto, desobedientes) discípulos, como Platão (427 a.C. – 347 a.C.). No diálogo Fedro, Platão registra uma conversa em que seu mestre expõe preocupações sobre a escrita e seus impactos na memória e, por consequência, no aprendizado: 

Essa descoberta [a escrita] provocará nas almas o esquecimento de quanto se aprende, devido à falta de exercício da memória, porque confiados na escrita, é do exterior, por meio de sinais estranhos, e não de dentro, graças a esforços próprios, que obterão as recordações.“[5]

Sócrates acreditava fortemente no valor do debate oral. Para ele, o diálogo ao vivo permitia a construção do conhecimento de forma ativa e colaborativa, por meio de perguntas, respostas e refutações, encorajando uma reflexão mais robusta. A escrita enclausura o conhecimento num formato estático, pensava Sócrates, sem permitir o questionamento ou o aprofundamento que o colóquio presencial proporciona. Ela não conseguia adaptar-se ao interlocutor, responder a perguntas, nem esclarecer dúvidas interativamente. 

Como visto no Fedro, Sócrates acreditava que confiar na escrita poderia enfraquecer a memória. Os nascidos até a Geração Y, também conhecida como Geração do Milênio [6], a primeira geração dos chamados nativos digitais, sabe como era comum um hábito perdido há mais de 20 anos. Com a popularização dos aparelhos celulares, quase ninguém mais decora números de telefone, conforme era o natural há poucas décadas. Foi o que constatou, por exemplo, a Kaspersky Lab. Essa empresa de cibersegurança do Reino Unido, “realizou uma pesquisa com 6.000 consumidores com 16 anos ou mais em seis países europeus”[7] e verificou o que ficou conhecido como “amnésia digital”. 

Isso decorre da quantidade de informações disponibilizadas pelas mídias digitais e a velocidade com que o volume de dados é processado pelo cérebro. Com o avanço e a facilidade com que as informações são disponibilizadas para a sociedade, as agendas digitais e os calendários, que marcam datas e eventos importantes, assim como dados necessários, nos deixam em uma situação confortável, levando ao esquecimento de pequenas tarefas, dados ou informações.“[8]

Parece que tudo já estava escrito e, tal como Sócrates alertou, a tecnologia de fato acabou por afetar negativamente nossa capacidade de memorização. Entretanto, não foi só isso que ela alterou em nós. Aqueles mais apocalípticos quanto à tecnologia, acostumados a pensar nela apenas em termos de equipamentos eletrônicos, não imaginam como mesmo tecnologias analógicas modificaram a própria forma de pensar do ser humano.

3.2. Novo tempo

Na Antiguidade, não havia marcações cronológicas rígidas, mesmo porque, elas não eram demandadas pelo tipo de vida daquele período. As medições temporais eram realizadas por meio de instrumentos que dependiam de fenômenos naturais, como a sombra nos relógios de sol e o fluxo de areia nas ampulhetas. O tempo era definido pelos ritmos agrários, sem exatidão, sem pressa ou noções de produtividade. Somente na Idade Média surgiu o interesse por uma aferição mais rigorosa, em virtude dos metódicos turnos de oração dos monges. Dos monastérios vieram, assim, os relógios mecânicos.

Com a migração das pessoas do campo para as cidades e suas novas rotinas nesse ambiente, o tempo teve a necessidade de ser ainda mais precisamente fracionado e unificado, principalmente em razão do comércio. O ritmo urbano era ditado pelo soar dos sinos das igrejas. Posteriormente, com a diminuição do tamanho e do valor dos relógios, eles passam a ocupar as salas das casas e depois os bolsos das pessoas. Assim, esses aparelhos começaram a moldar a noção humana quanto à passagem do tempo e quanto ao desperdício dele. Seu tique-taque constante incentivava um uso mais criterioso do tempo, incitando a busca por produtividade, por realização pessoal e, consequentemente, alimentando o individualismo que caracteriza o Ocidente.

Membro do conselho editorial de consultores da Enciclopédia Britânica, o jornalista Nicholas Carr, documenta isso com mais detalhes em sua obra finalista do Pulitzer: A geração superficial: o que a internet está fazendo com os nossos cérebros. Ele relata que essa invenção “mudou o modo como vemos a nós mesmos”.

Uma vez que o relógio tenha redefinido o tempo como uma série de unidades de igual duração, nossas mentes começaram a enfatizar o trabalho mental da divisão e mensuração. Começamos a ver, em todas as coisas e em todos os fenômenos, as partes que compõem o todo, e então começamos a ver as partes das quais as partes são feitas. [..] O relógio desempenhou um papel essencial em nos impulsionar da Idade Média ao Renascimento, e então ao Iluminismo.“[9]

Segundo o jornalista, esse simples objeto foi fundamental para “o surgimento da mente científica e do homem científico”[10]. O relógio mecânico é só um exemplo de como “tecnologias intelectuais” “têm maior e mais duradouro poder sobre o que e como pensamos. São as ferramentas mais íntimas, as que usamos para autoexpressão, para moldar nossa identidade pública e pessoal e para cultivar relações com os outros”[11], afirma Carr. “É um tema central da história cultural e intelectual” o fato de que 

“… as ferramentas que usamos para escrever, ler ou manipular de algum modo a informação trabalham com nossas mentes mesmo enquanto nossas mentes trabalham com elas. […] Como ilustram as histórias […] dos relógios mecânicos, as tecnologias intelectuais, quando se tornam de uso popular, muitas vezes promovem novos modos de pensar e estendem à população geral modos estabelecidos de pensamento que estiveram restritos a um pequeno grupo de elite. Toda tecnologia intelectual, colocando de um outro modo, incorpora uma ética intelectual, um conjunto de suposições sobre como a mente funciona ou deveria funcionar.”[12]

Essa dimensão ética raramente é percebida pelos usuários de uma tecnologia, que estão, em geral, mais interessados nos benefícios práticos advindos dela. Porém, é justamente em sua ética intelectual que as tecnologias exercem maior impacto sobre nós.[13]

4. Instrumentalismo e cristãos desatentos

A ideia de que ferramentas tecnológicas são meros instrumentos neutros moldados pelos usuários é chamada de instrumentalismo. Porém, como expressou o filósofo canadense-americano, James K. A. Smith, “as pequenas máquinas que seguramos agora em nossas mãos, não são neutras. Nós as fizemos, mas elas nos moldam”. Precisamos “primeiro reconhecer isso e então pensar em suas implicações”[14]. Muitos cristãos têm, contudo (e com tudo), caído no instrumentalismo sem ponderar acerca das dimensões éticas das novas tecnologias.

Derek Schuurman, PhD em Engenharia Elétrica na área de robótica e visão computacional e autor de Moldando um Mundo Digital: Fé, Cultura e Tecnologia Computacional, assevera:

A Rede Mundial de Computadores é outro exemplo de uma tecnologia que não é neutra. A web desafiou a noção de fontes autoritativas e o sentido da verdade. Mais grave ainda, como um meio [mídia] ela nos encoraja a “surfar” em vez de mergulhar profundamente em uma leitura reflexiva. Em um mar de hyperlinks, tendemos a vasculhar textos e imagens e ondeamos de um link a outro. […] O acesso rápido a grandes quantidades de informação e a velocidade de seu intercâmbio aumentou o ritmo do mercado e da vida. Alguns neurocientistas, inclusive, estão sugerindo que o meio da Internet está alterando a maneira como os cérebros dos jovens estão se desenvolvendo e funcionando.[15]

O mesmo autor conclui que “se a tecnologia é, de fato, uma atividade […] na qual os seres humanos exercem liberdade e responsabilidade para com Deus, então precisamos usar e desenvolver a tecnologia da computação de uma maneira que honre a Deus”[16]. 

5. Deus, grande usuário tecnológico

Apesar das formas por vezes indesejáveis que a tecnologia pode nos moldar, é interessante notar que o próprio Deus fez uso delas, desde a escrita, passando pelo envio de cartas, até o uso da imprensa. 

5.1. Um adeus aos copistas

Em meados do século XV, a imprensa de tipos móveis de Johannes Gutenberg foi uma tecnologia essencial para espalhar as ideias que seriam, pouco depois, redescobertas pela Reforma Protestante. Principalmente, a invenção da imprensa serviu para a propagação da Bíblia, primeiro livro impresso por Gutenberg, entre o povo. Antes dela, somente o clero e o topo da nobreza podiam possuir uma Bíblia. Afora as perseguições e proibições impetradas contra essa obra, a produção de livros como um todo era feita por copistas, uma mão de obra muito especializada, inteiramente manual e, por isso, extremamente lenta e cara. Pela primeira vez, Bíblias podiam ser produzidas em larga escala e a um custo muito mais baixo, tornando-as acessíveis a um público bem mais amplo. A imprensa também proporcionou a esse público acesso ao texto original e em suas línguas vernáculas, em vez de unicamente em latim. Aparentemente, sem reserva de mercado para essa atividade, o sindicato dos copistas ficou desesperado e desempregado, mas a Palavra se espalhou.

De fato, há problemas que o texto escrito não é capaz de resolver. É o que diz, desta vez não um hater, mas um grande usuário dessa tecnologia: “Tenho muito a escrever a vocês”, registrou o apóstolo no 1º século, “mas não é meu propósito fazê‑lo com papel e tinta. Em vez disso, espero visitá‑los e conversar com vocês face a face, para que a nossa alegria seja completa” (2 Jo 1.12) [17]. Contudo, enquanto Sócrates, que viveu no chamado berço da civilização ocidental, temia a tecnologia da escrita, Deus se revelou por meio das Escrituras: uma tecnologia humana, cujo conteúdo é fruto de inspiração divina. Sócrates, revire-se em seu túmulo, mas Deus nos deu um Livro, e ainda mandou imprimir.

5.2. “Todos os caminhos levam a Roma”

Esse famoso ditado reflete tanto a centralidade política e cultural dessa cidade quanto o sistema de estradas que ligava todo o império. Esse sistema não só garantiu a estabilidade e prosperidade do Império Romano por séculos, como também facilitou a disseminação de ideias que moldaram o mundo moderno. Dentre tais ideias, figura a fé cristã. 

Jesus e os apóstolos viveram sob o período da chamada Pax Romana, uma era de relativa paz e estabilidade em todo o vasto império. Esse contexto político, cultural e também tecnológico foi essencial para a rápida expansão do evangelho. Roma contava com uma ampla rede de estradas que conectavam cidades e regiões distantes e foram uma das mais notáveis realizações de engenharia e infraestrutura da Antiguidade. Construídas a partir do século IV a.C., elas se estenderam por todo o imenso território romano, ligando cidades e províncias que iam desde a Britânia (atual Reino Unido) até o Oriente Médio e o Norte da África. Estima-se que havia mais de 400.000 quilômetros de estradas, sendo cerca de 80.000 quilômetros pavimentados [18]. 

Usando uma avançada tecnologia para época, essas estradas eram projetadas para máxima eficiência e durabilidade e costumavam ser muito retas (os romanos cortavam até mesmo montanhas para manter a extrema retidão de suas vias). O processo de construção envolvia várias camadas de materiais para garantir a estabilidade e a drenagem adequada, começando com uma base de pedras grandes, seguidas por camadas de cascalho e areia, e finalmente pavimentadas com grandes blocos de pedra, sendo usada já naquele tempo uma espécie de concreto [19]. Eram colocados também canais laterais que permitiam o escoamento da água, preservando contra danos provocados por inundações, erosão e desgaste natural. Tudo isso exigindo, relativamente, pouca manutenção. Enquanto muitas estradas construídas hoje em nosso país não são feitas com metade desse grau de competência e, tal qual aspirina, desmancham-se na primeira chuva, muitas das antigas estradas romanas resistem e são usadas até hoje [20].

O ponto é que essa tecnologia facilitou grandemente as viagens dos missionários cristãos, permitindo que o evangelho fosse pregado com mais facilidade, inclusive nas regiões mais remotas. O mesmo pode ser dito sobre outra tecnologia que se popularizou nessa época: o papiro. A partir dessa planta aquática, passou-se a produzir um material homônimo que era mais leve, flexível, disponível e barato do que o pergaminho, feito de couro de animais. O papiro também facilitou a criação do códex, um formato de livro mais eficiente que substituiu os rolos, facilitando o transporte e preservação dos textos sagrados. Os que torcem o nariz para o uso da Bíblia no celular, talvez estariam lutando contra os avanços do papiro e do códex, dizendo que “bom mesmo era no tempo dos pergaminhos”.

Além de tudo isso, a segurança nas estradas e a unificação política possibilitaram uma maior liberdade de deslocamento. Assim, quando o apóstolo Paulo afirma que Jesus veio “na plenitude dos tempos” (Gl 4.4), muitos comentaristas defendem que ele se refere também a um momento histórico e, por que não, tecnológico, cuidadosamente preparado para a vinda do Messias e a disseminação de Sua mensagem. 

5.3. Do jardim à metrópole

Muitos parecem lidar como se Deus não gostasse de tecnologia e seu plano original fosse que vivêssemos para sempre no mato. Jamais desmerecendo o lindo mato que Deus criou, mas se esse era seu plano original, por que não retornaremos para lá, voltando a viver sem qualquer tecnologia? No próprio Céu, João viu a tecnologia do livro (Ap 5.1) e, segundo podemos concluir do que ele escreveu, Deus parece ter planos tecnológicos para a sua Criação, com a humanidade iniciando num jardim, em Gênesis, e encerrando sua jornada numa imensa metrópole, em Apocalipse. 

Conforme o já citado texto desse mesmo autor (2Jo 1.12), há coisas que a tecnologia não poderá suprir, como o encontro face a face, a autenticidade das relações humanas e a profundidade de uma adoração genuína. Ainda assim, ao contrário do que muitos pensam, na Nova Terra continuaremos usufruindo de tecnologia e, por que não pensar, uma tecnologia muito mais avançada do que esta que podemos construir com nossas mentes nessa era pré-glorificação.

6. Da rejeição completa ou adesão irrestrita à sabedoria

Embora o mais coerente para os críticos ferrenhos da tecnologia fosse expressar sua insatisfação sem recorrer a textos escritos ou calcular as horas apenas pela observação das sombras projetadas pelo sol, isso não elimina o impacto que a tecnologia exerce sobre nós. Mesmo os que se opõem a ela estão irremediavelmente imersos em seu uso. Ao mesmo tempo em que a tecnologia nos oferece conveniências e avanços, também nos priva de certas experiências e habilidades, e nem sempre o que ela traz no pacote é algo desejável. Ela pode facilitar nossas vidas, mas, em contrapartida, pode enfraquecer nossa capacidade de reflexão, reduzir nossa autonomia ou alterar nossas relações interpessoais. 

Precisamos reconhecer que, independentemente de nossa aceitação ou rejeição, a tecnologia molda nossas rotinas, pensamentos e relações desde que nascemos. Diante desse impacto inevitável, prestar atenção a esses efeitos é crucial para uma reflexão mais profunda sobre a ética, os benefícios e os riscos que ela traz à sociedade e ao indivíduo. Diante de tudo isso, seria exageradamente ingênuo pensar que a tecnologia não traria efeitos indesejáveis também à comunidade da fé.

Por isso, é fundamental que a igreja esteja atenta não apenas aos benefícios, mas também aos custos ocultos que as novas tecnologias impõem, refletindo de forma crítica sobre o equilíbrio entre ganho e perda no uso dessas ferramentas. A igreja precisa se posicionar diante da crescente influência das mídias e tecnologias, não como uma entidade imune às suas transformações, mas discernindo seus impactos e respondendo a eles com sabedoria.

O uso irrefletido da tecnologia é uma corrente de águas fortes, rasas e silenciosas: muitos cristãos, desatentos, entram nas águas digitais acreditando que estão apenas molhando os pés, sendo em seguida arrastados. Nos próximos textos desta série, exploraremos os desafios colocados à nossa frente por essa “fé instagramável”, incluindo a superficialização, a superexposição, o vício em imagem e como tudo isso pode estar afetando nossa adoração, nossa saúde mental e a das pessoas ao nosso redor. Também discutiremos como a igreja pode aderir à tecnologia de maneira prudente e consciente. As redes sociais, os filtros e as exibições de fé pública podem parecer inofensivos à primeira vista, mas, sem discernimento, essas práticas vão minando a profundidade da devoção e transformando a espiritualidade em performance. Se não formos vigilantes, acabaremos como náufragos, surpreendidos pela força do que parecia um simples fluxo, longe da essência do evangelho.



Referências:

[1] Postagem do Facebook. 10 abr. 2021. Disponível em: https://www.facebook.com/photo.php?fbid=3840380472732581&id=279200708850593&set=a.1359855510785102. Acesso em: 10 set. 2024. Postagem do Facebook. 4 fev. 2020. Disponível em: https://www.facebook.com/gospelmente/posts/j%C3%A1-vi-muito-isso-acontecer-/2705882426182397/?paipv=0&eav=AfZejwkZ4pnRyh2UEPbQKINCi2dNUk6HDqI1sK1AYHxrVYklsyW_HkdrE2heSu4kTL4&_rdr. Acesso em: 10 set. 2024. Veja ainda: Postagem do Facebook. 28 jan. 2019. Disponível em: https://www.facebook.com/photo.php?fbid=2043291752441471&id=279200708850593&set=a.279205512183446&locale=pt_BR. Acesso em: 10 set. 2024.

[2] FRAYZE-PEREIRA, João A. Pensamento clínico e cultura do espetáculo: a questão do íntimo. Ide (São Paulo), v. 39, n. 63, p. 1-10, 2017. Disponível em: https://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0101-31062017000100001. Acesso em: 9 set. 2024

[3] Mortes em tentativas de ‘selfies’ crescem e preocupam especialistas. Marie Claire, 26 out. 2021. Disponível em: https://revistamarieclaire.globo.com/Noticias/noticia/2021/10/no-mundo-mortes-por-selfie-atingem-numeros-preocupantes-em-2021.html. Acesso em: 9 set. 2024.

[4] Redes Sociais na Igreja: O Impacto na Disseminação da Mensagem. Disponível em: https://www.sistemajustus.com.br/redes-sociais-na-igreja/. Acesso em 2 set. 2024.

[5] Platão. Fedro. Lisboa: Edições 70. 1997, 275a-b.

[6] Os proponentes divergem quanto a datas, porém, parte deles posiciona essa geração entre os nascidos de 1981 a 1996. Dimock, Michael. Defining generations: Where Millennials end and Generation Z begins. Pew Research Center. 17 jan. 2019. Disponível em: https://www.pewresearch.org/short-reads/2019/01/17/where-millennials-end-and-generation-z-begins/. Acesso em: 8 set. de 2024.

[7] KASPERSKY LAB. O fenômeno da amnésia digital: Kaspersky Lab, 2015. Disponível em: https://go.kaspersky.com/rs/802-IJN-240/images/epub_M40_DigitalAmnesia_web_PTBR.pdf. Acesso em: 10 set. 2024.

[8] LEAL, Fernanda. Amnésia digital é fruto do volume de informação disponibilizado pelo avanço tecnológico. Jornal da USP, 10 jan. 2023. Disponível em: https://jornal.usp.br/atualidades/amnesia-digital-e-fruto-do-volume-de-informacao-disponibilizado-pelo-avanco-tecnologico/. Acesso em: 11 set. 2024.

[9] CARR, Nicholas. A geração superficial: o que a internet está fazendo com os nossos cérebros. Rio de Janeiro: Agir, 201, pp. 68-69.

[10] Ibidem, 69.

[11] Ibidem, 70.

[12] Ibidem, 70-71.

[13] Ibidem, 71.

[14] SMITH, James K. A. Endosso. In: SCHUURMAN, Derek C. Moldando um Mundo Digital: Fé, Cultura e Tecnologia Computacional. Brasília: Monergismo, 2019. p. 3.

[15] Gary Small, iBrain: Surviving the Technological Alteration of the Modern Mind (New York: William Morrow, 2008). In: SCHUURMAN, Derek C. Moldando um Mundo Digital: Fé, Cultura e Tecnologia Computacional. Brasília: Monergismo, 2019. p. 31.

[16] Ibd., 42.

[17] Salvo quando especificadas, todas as citações bíblicas desta série foram extraídas da Nova Versão Internacional.

[18]LE, Thomas. Ancient Roman Roads: A Monument to History and Road Construction. Geotech. Disponível em: https://www.geotech.hr/en/ancient-roman-roads-a-monument-to-history-and-road-construction/.  Acesso em: 9 set. 2024.

[19] FORMENTIN, Silvano. 10 Curiosidades sobre a fantástica rede de estradas do Império Romano. Disponível em:

[20] VITA ROMAE. Estradas romanas e a extensa rede rodoviária de Roma. Disponível em: https://www.vita-romae.com/roman-roads.html. Acesso em: 9 set. 2024.

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2 Comments

  • Vyrna

    Parabéns Vanedja e Gelvane pelo texto. Excelente reflexão sobre o uso da tecnologia e das mídias na nossa vida e igreja.

  • Rudi

    Otimo texto, so não cliquei para ler os comentarios

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