No meio cristão, os termos conservador e tradicional são frequentemente usados como sinônimos perfeitos. No entanto, precisamos estabelecer uma distinção clara entre essas duas posturas, especialmente no que diz respeito à fé protestante e à maneira como os princípios bíblicos são aplicados à vida debaixo do sol. Esta pequena reflexão tem a intenção de explorar essa diferença, destacando os perigos da confusão entre os dois conceitos e analisando a postura de Jesus frente a esta temática.
Conservadorismo: Apego ao que importa
O conservador é alguém que cultiva um profundo apego ao que é essencial à fé cristã, conforme delineado nas Escrituras. No protestantismo, essas bases inegociáveis estão refletidas nas Cinco Solas: Sola Scriptura, Sola Fide, Sola Gratia, Solus Christus, Soli Deo Gloria.
“Ora, mas as Cinco Solas são parte da tradição protestante” , você pode dizer. Verdade! Trata-se, porém de uma boa tradição, uma vez que encontra seu fundamento último na revelação de Deus para os nossos dias, a saber, a Escritura Sagrada. Veja:
- Somente as Escrituras: A Bíblia como a única autoridade em matéria de fé e prática (Is 8:20; Atos 17:11; 2 Timóteo 3:14-17; 1Pd 4:11; Ap 20:18-19)
- Somente a Fé: A salvação é alcançada somente pela fé em Jesus Cristo. (Romanos 3:28)
- Somente a Graça: A salvação é um dom gratuito da graça de Deus. (Rm 11:6; Efésios 2:8)
- Somente Cristo: Cristo é o único mediador entre Deus e os homens. (1 Timóteo 2:5)
- Glória Somente a Deus: Toda a glória pertence a Deus, e não ao homem. (Romanos 11:36)
Portanto, o conservador preocupa-se, acima de tudo, com a pureza doutrinária, a fidelidade às Escrituras e a preservação da essência do evangelho. E embora este conservador possa valorizar certas práticas e costumes, ele submete todas estas tradições ao crivo da Palavra de Deus e está disposto a reavaliar e abandonar qualquer tradição que, embora respeitada e consolidada pelo tempo, não tenha base nas Escrituras ou obscureça os fundamentos da fé.
Sobre o abandono às tradições e práticas não fundamentadas na Escritura, a irmã Ellen White diz:
“Opiniões aceitas por muito tempo não devem ser consideradas infalíveis. Foi a relutância dos judeus em deixar suas antigas tradições que os levou à ruína. Estavam determinados a não ver qualquer falha em suas opiniões próprias e na sua forma de expor as Escrituras. Mesmo que homens respeitados tenham defendido certas visões, se não estiverem claramente sustentadas pela Palavra, devem ser rejeitadas.” O Outro Poder, p.23
Ela diz ainda:
“As tradições e máximas humanas não devem tomar o lugar da verdade revelada. O progresso da mensagem evangélica não deve ser detido por preconceitos e preferências de homens, qualquer que seja sua posição na igreja.” Atos dos Apóstolos, p.104
Portanto, ser um cristão conservador implica no abandono de tradições que estejam em aberta oposição à Escritura Sagrada, ou que estejam impedindo outros indivíduos de alcançar a verdade como ela é em Jesus.
Tradicionalismo: Apego à aparência de piedade
O tradicionalista, por sua vez, está mais preocupado com a manutenção de costumes e práticas que foram transmitidos ao longo do tempo dentro da igreja, independentemente de terem ou não um sólido fundamento bíblico. O tradicionalista tende a se apegar a normas e rituais que, embora possam aparentar piedade, nem sempre têm respaldo direto nas Escrituras, embora ele se esforce em fazer parecer que há.
Nos meus quase 28 anos de adventismo posso, sem muito esforço, me lembrar de algumas tradições aparentemente piedosas, cultivadas entre os membros. Por exemplo, a identificação do local do púlpito como o lugar “santíssimo” e do nível ligeiramente abaixo como o lugar “santo”. Que criança adventista nunca levou um “carão” do diácono por ter ousado alçar aquele degrau?
Avançando um pouco no tempo, como não mencionar o reincidente condicionamento dos potenciais pregadores ao uso de terno e gravata? Minhas memórias adolescentes me recordam das vastas coleções de gravatas presentes nas salas pastorais. O mais incrível é que elas pareciam ter sido escolhidas a dedo para não combinarem com absolutamente nenhuma peça de roupa. Mas nos submetíamos.
Ora, com isso não estou querendo dizer que uma igreja não possa ter uma aberta preferência pelo uso destes trajes. É uma resposta legítima à cultura local. Mas, condicionar a participação do pregador ao uso dessas peças, me parece um problemático aceno à cultura da imagem. É a valorização da forma, em detrimento do conteúdo. Prova disso é que os piores sermões que ouvi, partiram de homens de terno, gravata e gel no cabelo. Se “o progresso da mensagem evangélica não deve ser detido por preconceitos e preferências de homens”, o que se veste deveria ser uma preocupação absolutamente secundária, respeitados, claro, os princípios da modéstia cristã.
O real problema surge quando essas práticas são elevadas a um nível de importância equivalente à doutrina, levando à confusão entre o que é essencial e o que é meramente costumeiro. O risco do tradicionalismo é que ele pode fornecer obstáculos à fé, criando uma forma de piedade que não tem uma base sólida nas Escrituras e que pode, inclusive, distorcer a essência do evangelho.
Riscos da Confusão entre Conservadorismo e Tradicionalismo
Quando conservadorismo e tradicionalismo são confundidos, surgem vários problemas:
Desvio do foco bíblico: A ênfase excessiva nas tradições pode desviar o foco da verdadeira mensagem bíblica, colocando os costumes acima dos princípios essenciais da fé.
Legalismo: O tradicionalismo pode levar ao legalismo, onde os cristãos são julgados mais por sua aderência a práticas externas do que por sua fé e relacionamento com Cristo.
Divisão na igreja: A confusão entre esses termos pode criar divisões desnecessárias, com alguns membros da igreja impondo tradições sem fundamento bíblico como requisitos para a salvação ou para uma vida cristã plena.
Veja o que Ellen White fala sobre o risco que há decorrente desta confusão de termos:
“Contos ociosos são introduzidos como verdades importantes, e para alguns eles são na verdade estabelecidos como pontos de prova. Assim se cria a polêmica, e a mente das pessoas é desviada da verdade presente. Satanás sabe que, se ele pode fazer com que homens e mulheres se absorvam em insignificantes detalhes, as questões de maior relevância serão deixadas sem atenção. Ele fornecerá abundância de matéria à atenção dos que estiverem dispostos a pensar em assuntos fúteis, sem importância. A mente dos fariseus estava absorvida com assuntos destituídos de valor. Eles passavam por alto as preciosas verdades da Palavra de Deus para discutir as tradições transmitidas de geração a geração, as quais de maneira alguma diziam respeito a sua salvação. E assim hoje enquanto momentos preciosos estão passando para a eternidade, as grandes questões da salvação são menosprezadas por alguma falsidade.” Mensagens Escolhidas, vol.1, p.170
Veja esse outro trecho:
“Jesus veio para comunicar à alma o Espírito Santo, pelo qual o amor de Deus é derramado no coração; mas é impossível dotar do Espírito Santo os homens aferrados a suas idéias, cujas doutrinas são todas estereotipadas e imutáveis que andam segundo as tradições e mandamentos humanos, como se deu com os judeus nos tempos de Cristo. Eram muito escrupulosos na observância das cerimônias da igreja, muito rigorosos em seguir suas formalidades, mas destituídos de vitalidade e devoção religiosa. Foram por Cristo assemelhados aos odres secos, então usados como recipientes. O evangelho de Cristo não podia ser introduzido em seu coração, pois não havia lugar para contê-lo.” Mensagens Escolhidas, vol.1, p.386
É essencial, portanto, que os cristãos façam a distinção entre o que é essencial à fé bíblica e o que é simplesmente uma tradição de valor relativo. A verdadeira fé não pode ser reduzida a práticas culturais ou rituais, mas deve ser enraizada nas verdades imutáveis das Escrituras.
Cristo: O Revolucionário Conservador
A figura de Cristo oferece um exemplo claro de como ser um conservador revolucionário. Jesus frequentemente se opôs às tradições humanas, especialmente quando estas obscureciam ou distorciam os princípios fundamentais da Lei de Deus (Mc 7:1-13; Mt 5:17-48).
Um exemplo clássico disso é encontrado em Mateus 15:3-6, onde Jesus questiona os fariseus por colocarem suas tradições acima dos mandamentos de Deus:
“Por que vocês transgridem o mandamento de Deus por causa da tradição de vocês? […] Assim vocês anulam a palavra de Deus por causa da tradição que vocês mesmos transmitem.”
Jesus defendeu a verdade e a pureza da Lei de Deus, condenando as tradições humanas que a distorciam. Ao curar no sábado (Lucas 13:10-17) e ao comer com publicanos e pecadores (Mateus 9:10-13; Lc 15:1-2), Cristo desafiou as normas religiosas de seu tempo, sem jamais comprometer os princípios essenciais da fé. Sua ênfase estava em preservar o propósito original da Lei, que era o amor a Deus e ao próximo, em vez de se prender às tradições que obscureciam essa verdade.
Jesus não era um tradicionalista preso aos costumes de sua época; ele era um conservador que defendia os princípios imutáveis da verdade divina. Ao mesmo tempo, ele rejeitava qualquer tradição que colocasse obstáculos entre o homem e seu Pai.
Conclusão
A distinção entre conservadorismo e tradicionalismo entre os crentes em Jesus é crucial para a compreensão correta da fé. O conservador se apega ao que é essencial e bíblico, preservando a pureza da doutrina conforme os princípios das Cinco Solas. O tradicionalista, por outro lado, pode se prender a costumes que, embora respeitáveis, não têm respaldo direto nas Escrituras.
Cristo nos oferece o modelo de um conservador revolucionário, que se opõe a tradições humanas que obscurecem a verdade, preservando o verdadeiro espírito da Lei. Cabe ao crente em Jesus seguir esse exemplo, mantendo a fidelidade à Palavra de Deus e rejeitando tudo o que, embora tradicional, não reflete o propósito divino.
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Excelente 👏